segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
E um copo d'agua
Numa noite quente saio sem celular,
carteira nem documentos.
Levo só uns trocados no bolso que me tornam gente,
homem que trabalha
para o afogamento semanal.
A piscina é funda, funda mas continua
sendo uma ridícula piscina.
Se afogar nela é tão imprestável
quanto, numa noite quente de Domingo,
falar em línguas nessa igreja de deus
com D minúsculo.
Moça do x-tudo, faça o favor de me trazer depressa
um amor sem pagar completo e sem passas.
Um amor sem barreiras em São Cristóvão,
em cima de muros ou em escadarias verde e amarelas.
Traga um peito suspirante que não seja mulher
de horizonte nas sobrancelhas,
nem de olhos nos calcanhares de estátuas gregas,
pois sou o ponto fraco de Aquiles de corpo inteiro.
Sou o ponto fraco daqueles de corpo inteiro.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Ein krenke
Um beijo é quase morte,
é como uma flor que se deixa
beijar por uma abelha,
que eu borboleta não pude beijar.
É um romantismo que a dor
implanta num suposto coração.
Coração esse que se sente ultra-romanticamente
transpassado por flechas de fleches.
Vaga o meu AllStar silente
e creme pelas ruas
barulhentas e cinzas.
Quem foi minha flor,
ó não, não se demorou a ser
uma concha de mãos sobre o rosto.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
A vida no centro da questão
Foi em uma outra vida
que vivi por uma vida inteira
e considero chorada a mágoa da vida de ontem.
Mesmo nublado e não amanhecido,
com esses carros, barracos, pontes,
mercados e pessoas por amanhecer.
Mesmo com o apitar dos ônibus
numa sinfonia urbana, caótica.
Mesmo a vida
escapando pelos escapamentos,
e os bares tocando escapismo
a um real.
Vejo que a vida,
análoga a morte,
espera como a consoante após uma vogal,
espera em um segundo plano
dentro dos olhos de quem vê a fumaça
de teu cigarro sair da boca,
e tomar o espaço
nessa redoma do tamanho de mim.
A vida cai no asfalto
como quem não vive,
espera o socorro como quem se
arrepende, mente como quem não
sabe o que diz, fere como quem
protege a si.
A vida é sim.
A vida é não.
Acima de tudo não,
abaixo de tudo sim.
Vida!
Vida...
E vida.
Dias,
mais dias,
menos vida
menos dias
e o não vem.
Bloco de notas
Voo até a passarela dela
e volto na nuvem da solitude de Andre Geraissati.
No mashup da minha mente lenta
o vento e Elís se entrelaçam no shuffle que corre soltou.
É dor de cotovelo o que sente os meus joelhos.
É cansaço o que me faz caminhar pela Rodovia.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Formiga em branco e preto
Contida, num canto de espaço em branco
das linhas do pentagrama,
uma formiga musical pinta as notas:
lá, si, si bemol. Transfigura o belo desfragmentado
das cores na parede em fragmento de melodia.
Caminha nas teclas do piano empoeirado,
toca si, pisa lá e si bemol.
Desafina todas as teias de aranha,
a poeira desprende-se do telhado como cortina,
como cachoeira de cal e barro.
Velharias imóveis, rostos, olhares e tudo
nas paredes como lembrança de um êxodo repentino.
Insetos, o escuro e as janelas fechadas,
uma formiga sem futuro. Um futuro, um talento
e sua espécie. Sua espécie, a música e sua platéia:
o escuro, o espelho de um vampiro, a poça imunda do mundo.
Monocromia de coloridos, escorre pelos ouvidos
e enquanto isso choram de felicidade e de dor.
Dobram a esquina como dois vis amantes
que somem da vista ao apagar de lâmpadas.
A rua se casabandona igual a sala de concertos
de um inseto prodigioso em melodias. O universo se superpopula de formigas,
e as cigarras são poucas. As bocas pedem água e pão; sede e fome
fazem linhas de verde e outras cores pelo chão do mundo de areia.
As estátuas de mármore e monumentos esculpidos nas vibrações do ar
se perdem pelos ouvidos que não ouviram. Que apenas trabalham.
Enquanto isso nossa formiga compõe a sinfonia dos cegos.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Pela rua do céu branco
Voa um pássaro neste céu branco de chuva,
é um urubu mas não importa, é bonito.
Plana como de braços abertos sobre esse lixão que somos nós,
plana em silêncio nos confins do céu.
Não se sabe para onde vai,
se voa a esmo, ou tem uma rota em seu pequeno cérebro.
Como um mendigo que caminha roto pela Washington Luiz
todos os dias, para onde ele vai eu não sei.
Para onde voo me sinto como esse pássaro
de penugem escura: me confundo no lixo.
Camuflo o meu alter ego ignorante inflamado de sabedoria
e caminho passo a passo cambaleante de sono quase morte.
E caminhando, papel na mão, atravesso o sinal,
acaba o poema sem nenhum por que. No mais o pensamento
pôde escorrer pelo azul da tinta e alimentar a industria
brasileira de canetas estereográficas.
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